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O envelope


"Não me vou esquecer de dar o recado, fique descansada que será entregue em boas mãos."

Agarrei no envelope, que a Dona Fernanda tinha em cima do balcão e fui direito à estação, ainda faltavam alguns minutos ate o comboio chegar, pus as malas no chão e sentei-me num velho banco de madeira enquanto a guardava a velha máquina da CP que percorria as planícies a sul do Tejo. 



Aproveitei aquele momento para pensar no quanto soube bem este curto regresso a casa, o fim-de-semana prolongado, o feriado na 3ª vinha mesmo a calhar bem, apesar de adorar morar e estudar em Lisboa, as saudades de casa e da minha santa terrinha perdida algures no Alentejo estão sempre presentes, sabe bem o convívio com os amigos com os quais partilhei o liceu, rever antigos amores, para não falar da comida de casa que tem sempre outro sabor, alem de que poder sentir o silencio e o vento destas paragens é extremamente acolhedor. Adoro o contraste entre a calma de Vila Viçosa e a confusão da cidade das sete colinas, é algo admirável.

O comboio chegou e lá estou eu de regresso a Lisboa, saudades da faculdade poucas, saudades dos amigos e das festas mais que muitas. Aproveitei a viagem para por a leitura em dia, 1s paginas do ultimo romance do Mário Zambujal. Na paragem na estação de Montemor, entrou a Felipa, uma colega de faculdade, passamos o resto da viagem à conversa e nem demos pelo tempo passar. Chegados a Lisboa, cada um seguiu o seu caminho, amanha lá nos encontraríamos de novo entre os auditórios onde um dia Marcelo Caetano leccionou Direito Administrativo. Apanhei o autocarro, à pressa e lá fui em direcção ao meu minúsculo quarto alugado algures numa casa com mais do dobro da minha idade, no carismático bairro de Alfama, o dinheiro não chega para tudo e como diz um velho ditado “quem não tem cão, caça com gato”. 

Depois de arrumar as minhas “tralhas” necessárias para mais quinze dias longe de casa, da família e da minha pacata vila.Entrei no quarto do João mas ele ainda não tinha chegado, deixei o envelope que a Dona Fernanda tinha entregue (a madrinha do meu colega, mas como o João era de Chaves e a Dona Fernanda de Vila Viçosa, só se viam por alturas do Verão) o envelope devia ser a prenda de anos, visto que o João fazia anos na quinta-feira, fechei a porta devagar e como ainda era cedo e os outros colegas de casa ainda não tinham chegado fui dar uma volta ali para os lados do Castelo e do Santiago Alquimista, adoro ver o pôr de sol naquele cenário…

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